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Wend Oianiyi
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30 de abril de 2025 · Blog

Museu da Diversidade Sexual

Provocações e reflexões sobre corpos dissidentes

Museu da Diversidade Sexual
“Provocações e reflexões sobre corpos dissidentes”, da Educadora Social Wend Oianiyi Fernandes.

O corpo é o primeiro território onde o poder se inscreve. Antes mesmo de ganharmos nome, já somos atravessades por um conjunto de classificações que irão determinar nossas possibilidades de existência. A leitura genital, a cor da pele, a textura do cabelo, o modo de olhar: tudo é interpretado por uma norma social que se pretende natural, mas que revela-se como artefato histórico e colonial. Nesse cenário, corpos dissidentes não apenas fogem à norma, mas a expõem. Eles fazem ruir a ilusão de neutralidade que sustenta o binarismo, a branquitude, a cisgeneridade e a heterosexualidade como pilares do humano legítimo.

Pensar a dissidência corporal, portanto, não se trata apenas de refletir sobre os corpos que não se conformam às normas. É necessário compreender como essas normas são produzidas com o objetivo de excluir, controlar e silenciar. O conceito de performatividade de gênero, proposto por Judith Butler (1990), oferece uma chave importante para esse entendimento. Segundo a autora, o gênero não constitui uma identidade interior que se expressa por meio do corpo, mas é uma repetição reiterada de atos que, com o tempo, se naturalizam. Todo corpo é performativo, embora nem toda performance seja autorizada. Existem performances que são punidas, invisibilizadas, eliminadas.

É nesse ponto que os corpos dissidentes tornam-se insuportáveis à lógica da norma. Não apenas performam de modo distinto, como revelam que o “normal” também é um jogo, uma repetição, uma construção. A travesti que caminha pela cidade com orgulho, o corpo gordo que se recusa à autonegação, a pessoa negra que assume sua estética como ato político: todos esses corpos desestabilizam a ficção da universalidade. São percebidos como ameaça não pelo que “são”, mas por aquilo que desconstroem.

O projeto moderno-colonial, conforme apontam autores como Aníbal Quijano (2005) e Maria Lugones (2008), instituiu uma matriz de poder onde raça, gênero e sexualidade operam como instrumentos de classificação e hierarquização da vida. A colonialidade do poder não se restringe à dominação econômica e política; ela se encarna nos corpos, define o que é belo, o que é civilizado, o que é desejável. A normatividade de gênero e de raça funciona, nesse contexto, como uma tecnologia de domesticação. Uma pedagogia da obediência.

A travestilidade, por exemplo, não se reduz a uma identidade de gênero. É, sobretudo, uma forma de insurgência. Como enfatiza Jaqueline Gomes de Jesus (2012), ser travesti no Brasil implica enfrentar diariamente tentativas de apagamento social, afetivo e institucional. O corpo travesti não se encaixa nos moldes cisgêneros e, ao ocupar os espaços públicos, inscreve uma outra lógica de presença. No entanto, essa inscrição é constantemente punida. O Brasil ainda ocupa o trágico posto de país que mais assassina pessoas trans e travestis no mundo (ANTRA, 2023). Essa realidade não deve ser lida como exceção, mas como parte de uma estrutura que define quem pode viver com dignidade e quem será descartado.

É preciso, contudo, ir além da denúncia da violência. Corpos dissidentes não existem apenas na chave do sofrimento ou da resistência. Eles também criam prazer, cultivam afetos, inventam formas de cuidado coletivo. São arquivos vivos de saberes subterrâneos, de epistemologias que escapam às gramáticas hegemônicas. Sayak Valencia (2010) propõe pensar uma estética da dissidência que emerge da ferida, mas que não se reduz a ela. Essa estética se apresenta como forma de reinvenção e de desobediência criativa.

As experiências dissidentes exigem, por isso, uma reconfiguração radical do pensamento político e acadêmico. Produzir conhecimento a partir de corpos historicamente silenciados implica desestabilizar os alicerces epistêmicos do Ocidente. Pensar o gênero para além da cisgeneridade, a branquitude para além da universalidade presumida, a sexualidade para além do desejo hétero-masculino nos convida a criar outras perguntas e outros mundos possíveis.

A presença de corpos dissidentes nas universidades, nos espaços culturais e nas políticas públicas não deve ser encarada como exceção ou concessão, mas como parte de um processo de reparação histórica. A escuta dessas vozes múltiplas, contraditórias, insurgentes é condição para qualquer projeto ético que deseje transformar o presente. Afinal, não se trata apenas de reconhecer a diversidade, mas de refazer o próprio campo do que é considerado humano.

Talvez seja exatamente nesse gesto de refazer o mundo que se manifeste a potência mais radical dos corpos dissidentes. Eles nos desacomodam, nos obrigam a abandonar a pretensa neutralidade da teoria e a habitar o desconforto da escuta. Eles mostram que a norma nunca foi neutra, e que os futuros que buscamos já estão sendo antecipados nas margens, nos becos, nos palcos e nos corpos que insistem em viver, em dançar, em criar, mesmo quando tudo parece dizer o contrário.

Escrito por Wend Oianiyi Fernandes, Gestora Cultural.